quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Disléxicos precisam de provas adaptadas

Um estudante com dislexia não consegue ler e escrever com precisão e fluência, habilidades altamente exigidas em exames como o Enem e o vestibular

Mundialmente famoso por ter formulado a teoria da relatividade, Albert Einstein apresentava sérios problemas de aprendizado. O alemão tinha dislexia, um distúrbio que o impedia de ler e escrever com a mesma facilidade dos demais estudantes. Mesmo assim, tornou-se um dos maiores gênios de todos os tempos, graças à ajuda de um professor que percebeu nele um grande potencial para a Física e a Matemática. Se vivesse hoje, porém, e participasse de um exame como o vestibular ou o Enem, Einstein provavelmente apareceria entre os últimos colocados, segundo a psicóloga Mônica Luczynski, especialista em educação especial e criadora de um programa de alfabetização específico para disléxicos.

“Que adaptações os disléxicos tiveram para fazer a prova do Enem? Deveria ter sido dado mais tempo para que eles lessem a prova e a respondessem. Além disso, o estudante disléxico que não teve acesso a medidas remediativas muitas vezes precisa de alguém que leia as questões para ele”, afirma Mônica. A psicóloga diz ainda que não basta oferecer apoio no momento do Enem ou do vestibular. Segundo ela, o acompanhamento pedagógico deve se estender ao período da faculdade. “Algo que pode ajudar esses alunos é a aplicação de provas orais, em vez de escritas, além do uso de programas de computador que lêem o que está na tela”, exemplifica.

Disléxico confunde letras

A dislexia é uma alteração genética e neurológica que provoca dificuldades de aprendizagem nas áreas de leitura e escrita. “O disléxico não consegue estabelecer uma relação entre os símbolos e o som. Ele confunde letras com sons parecidos, como ‘d’ e ‘t’, e não consegue escrever as palavras com esses símbolos de forma correta. Também pode acontecer que ele queira falar uma palavra, mas venha outra”, explica a psicóloga Mônica Luczynski. Segundo Maria Ângela Nogueira Nico, coordenadora científica da Associação Brasileira de Dislexia (ABD), os disléxicos também podem apresentar a memória imediata prejudicada, falta de concentração e dificuldades em decorar tabuadas e aprender outro idioma. (MC)

Vestibular da Tuiuti tem banca especial

No vestibular da Universidade Tuiuti do Paraná, o candidato com dislexia pode solicitar a presença de uma banca especial. “Um professor lê a prova para o vestibulando, em uma sala especial, onde ficam apenas os dois”, explica Ana Luíza Bender Moreira, presidente da Comissão de Educação Inclusiva da instituição. A psicóloga Tamara Simons estudou na Tuiuti, mas conta que não precisou de adaptações para fazer a prova. “Não precisei disso, pois fui diagnosticada cedo e consegui trabalhar as minhas dificuldades”, afirma. Na Universidade Federal do Paraná (UFPR) ainda não existe a prerrogativa de prova especial para candidatos disléxicos. (MC)

Serviço

Mais informações sobre a dislexia estão no site www.dislexia.org.br e no livro Dislexia, você sabe o que é? – inteligente, mas aprende diferente, de Zeneida Bittencourt. O livro pode ser adquirido pelo telefone (41) 3242-8589.

Prova oral

A história do professor Marcelo Rossini da Cunha, que dá aulas de Biologia no Curso Unificado, mostra como pequenas atitudes podem estimular o aluno disléxico a seguir em frente nos estudos e conquistar um diploma universitário. Ele conta que só descobriu que era disléxico quando estava na faculdade. “Um professor desconfiou de que a turma inteira havia colado em uma prova e resolveu aplicar um exame oral para confirmar se os alunos sabiam a matéria. Eu me saí muito melhor na segunda prova e o professor, depois de me perguntar, entre outras coisas, se eu confundia as letras na hora de escrever, disse que eu poderia ter dislexia”, recorda.

Marcelo procurou, então, uma psicopedagoga. Confirmado o diagnóstico, buscou formas de superar seus problemas com a linguagem. “Durante a faculdade, foi marcada uma prova para verificar se os alunos sabiam a nomenclatura de algas. Todas elas começavam com ‘c’ e terminavam com ‘fita’, e com certeza eu iria escrever os nomes de forma errada. Por isso, pedi para fazer uma prova oral”, conta.

Desinformação

Marcelo teve o apoio dos docentes com quem conviveu, mas muitos disléxicos sofrem com a desinformação daqueles que deveriam incentivá-los. A psicóloga e psicopedagoga Tamara Simons, 30 anos, lembra que ouviu comentários desrespeitosos de um professor de Inglês quando pediu para não participar de um jogo de “stop”, em que teria de escrever palavras no quadro, diante de toda a sala. “Ele me disse que aquela era uma excelente oportunidade para que eu parasse de me esconder atrás da dislexia”, diz. Noa Brykczynski, 26 anos, também passou por situações constrangedoras. “Comecei a fazer o ensino médio em um colégio de Santa Catarina, mas os professores não entenderam as minhas dificuldades e, depois de quatro meses, fui convidada a me retirar”, conta ela, que fez um curso supletivo em Curitiba e agora planeja prestar vestibular para Turismo.

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